domingo, 26 de setembro de 2010

Autopsicografia do século XXI

Há cinco meses e exatos cinco dias caí de paraquedas na Nova Zelândia e o principal motivo da minha vinda foi tentar alavancar a minha vida profissional, afinal, estar em um país de língua inglesa e ter a experiência de morar fora do Brasil conta pontos no currículo. Pois, em pleno ano de 2010, ser somente graduado é a mesma coisa de ter concluído apenas a pré-escola.
Nesses últimos meses, te confesso, já ganhei mais bagagem do que toda a vida que passei no Brasil. Aqui, os brasileiros que conheci costumam dizer que para sobreviver a gente tem que matar um leão por dia, e é verdade! Já passei nesse pouco tempo por tanto sufoco e tantas aventuras que poderia escrever um livro! E agora, analisando bem, acho que a minha escolha de passar por esse processo antes de tentar algum tipo de especialização na carreira foi acertada, até porque, quando terminei a faculdade, assim como 99% das pessoas que se formam em alguma coisa nessa vida, pensei: “o que eu faço agora?”, e junto com essa pergunta vieram todos aqueles dez milhões de problemas existenciais.
Foi então que chegou a hora de começar a listar as soluções e uma delas, assim como 98% dos que se formam em alguma coisa é tentar seleções na sua área de atuação. Ora, se agora eu sou uma profissional qualificada, nada mais justo que procurar um emprego compatível com que eu escolhi ser, afinal, quem não gostaria de ver registrado na carteira de trabalho a concretização da sua tão sonhada vitória?
O grande problema é que, depois da formatura, a batalha só está começando, pois junto com os seus milhões de conflitos existenciais você tem que aprender a enfrentar a fúria implacável dos psicólogos e avaliadores das empresas nas quais tem a intenção de trabalhar. E haja criatividade!
Outro dia mesmo estava me inscrevendo em uma seleção de trainee e, no meio de toda aquela invasão da minha privacidade - pois só não tive que informar o meu tipo sanguíneo, porque até minha religião descobriram - me deparei com a seguinte pergunta: “Descreva uma situação, na qual você tinha um objetivo que ninguém acreditava que pudesse alcançá-lo e você conseguiu depois de ter vencido muitas barreiras. Qual era o seu objetivo, quais foram as barreiras, o que fez com elas e qual foi o resultado?”. Te confesso que após ler essa pergunta eu fiquei uns 5 minutos imóvel, estática, e a única coisa que passava pela minha cabeça era: “que espécie de questionamento é esse?”
E passado alguns dias, essa pergunta ainda está povoando meus pensamentos, e agora acompanhada de outras! Por que é necessário, antes de trabalhar em uma empresa conceituada, eu ter que passar por um algum tipo de sacrifício? E o que é pior, por que ninguém pode acreditar em mim? 
Ora, eu tenho família! Eu tenho amigos! Sei que não sou a pessoa mais popular do planeta, mas algumas pessoas gostam sinceramente de mim e torcem pelo meu sucesso! E que fosse somente a minha mãe! Alguém torce por mim!
Como se não bastasse ter que ser a pessoa mais desacreditada do universo, você tem que contar todas as suas adversidades e atribulações em 500 caracteres! Você sabe o que são 500 caracteres? Apenas meia dúzia de linhas bem espremidinhas que não da pra contar nada! Para se ter uma ideia, até agora eu já escrevi mais de três mil!
Eu gostaria, sinceramente, de saber que tipo de resposta as pessoas que nos fazem esses questionamentos querem ler, porque, vamos falar a verdade, deve levar a vaga quem contar a fábula mais criativa! Só pode ser! Pois, meu amigo, vencer barreiras nas quais ninguém, mas absolutamente ninguém acredita em você me soa como uma aventura cinematográfica! E se alguém tem na vida real esse tipo de situação, não vai conseguir resumir em apenas 500 caracteres. É muita aventura para um quadradinho tão pequeno!
Talvez fosse melhor incluir nos cursos superiores uma matéria que nos ensine como contar histórias criativas para os avaliadores de processos seletivos, assim, pelo menos, a gente já sai preparado e sabe o que vai responder quando vierem com essas perguntas mirabolantes para o nosso lado.
O pior é se depois de aprovado na seleção tivermos que passar  esse conto adiante e continuar sendo “criativos” para se manter no cargo! Se alguém, por acaso, ler esse texto e passar da última etapa de algum desses processos seletivos, por favor, me conte o desfecho desse mundo profissional, porque, por enquanto, a minha criatividade, assim como 97% dos que tentam alguma vaga de emprego, não é compatível com o perfil monitorado.

3 comentários:

  1. É a sua cara, Karlinha!!!
    Saudades...
    Beijos grandes, Aninha!

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  2. Gente quer coisa mais dificil q vc enfrentou do q está aí?? Fala isso pra eles bobaaa que com certeza a vaga é suaaaaa! Só pra constar o seu blog está nos meus favoritos, passo aqui todos os dias e ainda divulgo no meu twitttter tá sua LINNNDAAAA! Sauuuudades MILLLL 1000% de saudade pq sou desses! Te amo muito!

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  3. Plaft! Soc! Pow! Crash! Acertou em cheio o sistema hein!!! rsrs... saudades! Ps.: Adorei o detalhe da porcentagem decrescendo a cada golpe, hehe, Bjus

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